A infância
A Infância
Quando a gente olha pra trás pelos caminhos da vida, a infância aparece meio sonolenta, como se estivesse deitada lá longe no tempo, descansando nas lembranças da campanha. Às vezes ela desperta de repente, trazendo sonhos antigos que ficaram espalhados pelo caminho, como sementes que o vento levou e nunca chegaram a brotar.
Nas andanças do campo, eu ia sempre na frente dos arreios, acompanhando meu pai pelas campereadas da estância. Era um gurizote ainda, mas já me sentia parte da lida, ouvindo o ranger do couro, o tranco cadenciado do cavalo e as histórias que o vento parecia contar entre uma coxilha e outra. Aquela figura firme guiando a tropa ficou gravada no pensamento, dessas imagens que o tempo não consegue apagar.
Na hora da sesteada, eu me embrenhava pelos cantos do mangueirão, inventando aventura de guri. Armava arapucas no meio do mato, esperando quieto que algum bicho distraído viesse espiar. Era brincadeira de campo, dessas que misturam paciência, curiosidade e o encanto de quem descobre o mundo devagar.
Pelo potreiro eu andava de bodoque na mão, mais afoito que certeiro, mirando lagartos que se esgueiravam pelo chão quente. E quando a vontade de correr falava mais alto, lá estava o petiço piqueteiro pronto pro retouço, disparando pelo campo como se também fosse guri, livre e faceiro.
Naquele tempo a gente nem percebia o tempo passando. Os dias iam se amontoando feito nuvem no céu grande da campanha, e a vida seguia leve, sem pressa nem conta. Só depois, quando o tempo já tinha cruzado longe, é que ficou a lembrança e uma saudade inquieta, dessas que pateiam dentro do peito como cavalo a soga.
Lembro bem do meu primeiro cavalo era de taquara, um tordilhinho, ligeiro nas manhas e cheio de vontade própria. Não foi fácil ganhar confiança daquele bicho, mas entre tombos e insistência acabamos nos entendendo. E quando enfim ele aceitou o freio, parecia que eu tinha conquistado o mundo inteiro.
As várzeas se estendiam largas diante dos olhos de guri, e as invernadas pareciam não ter fim. Nas recorridas de campo tudo era grande demais pra minha medida: o horizonte, o tempo e a própria aventura de viver. Hoje sei que aquelas jornadas eram demoradas só pra quem era pequeno, mas foram elas que ensinaram o coração a ser do tamanho da campanha.
...Quando olho o rastro antigo,
vejo a infância deitada,
feito sonho adormecido
na lembrança da estrada.
Na frente dos arreios eu ia,
guri seguindo o pai,
ouvindo o campo que dizia
histórias que o vento traz.
E o tempo, sem dar aviso,
se foi nas tardes de sol,
deixando um doce improviso
de saudade no arrebol...






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Lucas Nunes Fotografia











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