Por João Luis de Almeida
Onde o Olhar Se Perde e a Alma Se Encontra
Sentado à sombra mansa de um cinamomo antigo, desses que já viram mais tempo que muito cristão, o olhar se larga campo afora, sem rédea nem destino. E quando a vista alcança longe, o peito se aquieta como se entendesse, sem palavra nenhuma, o que a vida quer dizer.
Ali, onde o verde se mistura com o azul do céu num abraço sem fim, o mundo parece mais certo. As coxilhas ondulam feito mar parado, e o vento passa alisando a macega como quem faz carinho na própria terra.
É nessas horas que o pensamento se solta, meio xirú, meio passarinho, voando por entre lembranças e querências. Vai junto com as revoadas, se perde no horizonte, e volta diferente, mais leve, mais manso, mais dono de si.
O campo vive. E não é de hoje.
Num canto, a gadaria se espalha, desenhando o chão com passos antigos. Mais adiante, a tropilha segue firme, confiando na égua madrinha como quem segue destino certo. E no meio desse silêncio cheio de som, um berro forte corta o ar, lembrando que ali pulsa vida bruta, dessas que não se dobra.
As ovelhas pastam quietas, como se soubessem de um segredo que só o campo conta. Tudo ali tem compasso, tem sentido, tem alma. Até o silêncio fala e fala alto pra quem sabe escutar.
E o vivente, pequeno diante de tanta grandeza, vai se ajeitando por dentro. Porque enxergar isso tudo não é só ver é sentir. É como se cada naco daquele chão sustentasse o espírito, firmasse o coração e ensinasse, sem ensino, o valor da calma.
Respirar aquele ar é quase uma reza.
Um tipo de conversa sem voz, entre o homem e a imensidão.
E quando o olhar se perde de vez naquele horizonte largo, não é distração, é encontro.
Porque tem paisagem que não se contempla… Se vive. E tem chão que não se pisa… Se pertence.
...A vista se perde no azul que abraça a coxilha,
Num enlace sem fim entre o verde e o céu;
O mundo se apruma, a alma se alinha,
E a vida se mostra sem máscara ou véu.
O vento, esse xirú que entende de carinho,
Passa alisando a macega com jeito de artesão,
Enquanto o meu pensamento, feito um passarinho,
Voa livre por querências, sem rédea na mão...
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