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Garoa num entardecer
Por João Luis de Almeida
Garoa num entardecer
O entardecer vai se achegando de mansinho, desses que não fazem barulho. A gente tá ali mateando com a peonada, cada qual no seu silêncio, e a chuva fina começa a bater no zinco, compassada, escorrendo pela beirada como quem respeita o momento.
Esse som miúdo da água cai que nem música velha conhecida. Vai entrando na gente sem pedir licença, trazendo calma, ajeitando os pensamentos, alimentando a alma cansada do dia. É nessas horas que o coração desacelera e a mente se aquieta.
Ao redor das casas, o bicharedo se mexe. Cada um tratando de buscar abrigo, procurando galho, ninho, canto seguro no arvoredo. Tudo se organiza sem pressa, obedecendo um instinto antigo, desses que o homem do campo aprende só de observar.
O ovelheiro se achega, dá umas voltas e se enrodilha perto do fogão. Parece que sente o clima, como se soubesse que aquele é um momento de recolhimento, de ficar quieto de respeitar o pensamento do dono.
São coisas simples, mas de um valor danado. Só entende quem tem raiz fincada no chão batido, quem carrega nas retinas essas cenas de galpão, de campo e de vida mansa. Lembranças que não se perdem e que a gente leva junto, onde quer que vá.
...Garoa fina no telhado,
mate quente na mão,
o silêncio do campo
acalenta o coração.
Nos galhos a bicharada
o galpão guarda o calor,
e na calma do entardecer
a vida encontra valor...
...