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Pra encurtar as lonjuras
Por João Luis de Almeida
Quando a noite caía mansa sobre o rancho, o silêncio da campanha parecia emponchar o lugar. A lua se achegava devagar pela janela, clareando o chão batido e deixando o brilho das estrelas espiar por entre a escuridão. E era nessas horas quietas que o peito do vivente se enchia de lembrança, dessas que chegam sem pedir licença e fazem o coração apertar.
Lá fora o minuano soprava cortante, trazendo aquele friozinho seco de agosto que entra pelas frestas e parece conversar com a saudade. Acordavam recordações antigas, imagens guardadas no fundo da alma. O rosto dela surgia na memória como clarão distante e bonito, mas meio perdido no tempo, feito estrela que a gente vê mas não consegue alcançar.
Pra espantar o vazio, o campeiro se achegava ao fogo, amargueando e tentando enganar a solidão. Entre um gole e outro, as lembranças iam sendo camboneadas pela cabeça, como gado manso sendo tocado devagar pela invernada da memória. No calor das brasas, a esperança ficava ali, quieta, mas viva, feito tição vermelho que insiste em não apagar.
Mas a vida de quem lida na campanha não se entrega fácil. O serviço segue firme, dia após dia, porque o campo não espera tristeza de ninguém. Ainda assim, quando sobrava um tempo, encilhava o gateado e tomava rumo pelos corredores. Não era só trotear a esmo, era jeito de encurtar distância, de tentar aproximar dois destinos separados pelo mundo.
Quem sabe numa dessas voltas de estrada o destino resolvesse dar de mão e cruzar os caminhos outra vez. Talvez ela estivesse por algum povoado desses espalhados pela fronteira, vivendo sua vida, esperando sem saber por aquele mesmo encontro.
E então ele chegaria de mansinho, com o cavalo suado de jornada, o coração batendo largo no peito. Porque às vezes é assim na vida campeira: quando a saudade fica grande demais, o único jeito é se enforquilhar e sair pelo mundo tentando encurtar as lonjuras.
...Pra encurtar as lonjuras da estrada,
A noite cai mansa, sobre o rancho e galpão;
O silêncio da pampa, em cordas de prata,
Emponcha ansias, nostalgias e a solidão.
A lua se achega, adentrando a janela,
Clareando a alma com calmo esplendor;
E o brilho das estrelas, na fresta mais bela,
Espia a escuridão pra nos dar seu calor...
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